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Cicloturismo Carlos & Malú

Blog EntryAug 13, '07 4:39 AM
for everyone

    

Segunda feira 06 de agosto de 2007

 

O que parecia ser mais um dia sossegado, com poucos peregrinos hospedados e poucos no Caminho, se tornou o dia de maior movimento depois que estamos aqui. No meio da tarde chegou um numeroso grupo de ciclistas. Logo depois mais pedestres e ciclistas completaram a lotaçao do albergue. Para nós hospitaleiros é um momento difícil, dizer um não para um peregrino cansado que chega. Saber que ele vai ter que caminhar mais ainda em busca de um abrigo dói no coraçao. Alojamos alguns até em nossa área administrativa. Colchoes pelo chão e caras felizes, a mágica do caminho continua.

Hoje tivemos em casa a melhor coleçao de bicicletas que já ví em todo os meus anos de ciclista. Essas máquinas incorporam inovaçoes tecnológicas que no Brasil só vemos em catálogos de fabricantes. Aqui elas estão cobertas da poeira do Caminho mas nem por isso menos belas.

A Malú teve seu dia de maior trabalho. Coordenar o café da manha de mais de trinta peregrinos famintos e apressados não é tarefa fácil mas a pequena Malú é um gigante em agilidade nessas horas.

Para aqueles que estão planejando sua jornada pelo caminho de Santiago sugiro utilizarem um recurso que pode ajudar muito no seu dia a dia. A rede de albergues privados, que existe desde Puente la Reina até Santiago de Compostela aceita reservas por telefone. Isso facilita em muito a vida do peregrino que fica livre do sobressalto de encontrar um albergue lotado no fim de um duro dia de jornada. Sem essa pressão de chegar cedo, o peregrino pode desfrutar melhor dos lugares, monumentos e pontos de interesse da jornada diária. Incentivamos o uso desse recurso pois nossa experiência em 2005 foi bastante cansativa. A diferença de custo para os albergues paroquiais e municipais é muito pequena. O atendimento é melhor, a limpeza e a qualidade dos serviços muito diferenciada.

Para utilizar esse serviço é preciso obter um guia que é fornecido em qualquer albergue da rede. Pode ser no primeiro que Irão encontrar, logo depois de Pamplona, em Puente la Reina, o albergue Santiago Apóstol. Para contatos com a rede pode se utilizar a internet:

 

 

http://www.redalberguessantiago.com

 

 

 

Terça feira 7 de agosto de 2007

 

As pequenas cidades do interior da Espanha, como a que estamos, escondem aspectos que nos surpreendem a cada instante. Aqui os padeiros ainda passam pelos cliente entregando os pães. Quando o cliente não está, deixam o pão numa sacola amarrada ao trinco da porta. Nessa terça feira estacionou em frente ao albergue uma reluzente motocicleta Harley Davidsom. Aquele ruído de motor caracteístico me chamou a atençao e fui ver quem estava chegando. Surpresa, a nossa padeira, que todos os dia traz o pão em sua Fiorino, hoje veio pilotando uma belíssima Harley. Coisas desse interior espanhol.

 O que se percebe, depois de algum tempo é que, por detrás dessa fachadas de casas antigas, se escondem modernas moradias, muito bem equipadas com calefaçao, isolamento térmico e todas as facilidades das modernas construçoes.

Outra coisa que me chamou a atençao é como determinadas profissões técnicas são valorizadas. Para se ter idéia, o serviço de um fontanero, o nosso bombeiro hidráulico ou encenador, é melhor remunerado em termos de hora de trabalho, que o de muitos médicos locais.

No albergue existem dezenas de telas penduradas pelas paredes, a maioria pintada por peregrinos que aqui se hospedam. Nessa terça, fomos brindados pelo lindo trabalho de um peregrino italiano. Pintou uma tela representando San Jaime e nos contou a história do santo. Conta a tradiçao que esse  peregrino seguia sua jornada para Compostela quando teve o pé ferido por um espinho. Era noite escura e seu lamento foi atendido por Deus que enviou um anjo que, com uma lamparina iluminou o pé do peregrino para que ele pudesse se livrar da dor. Isso está muito bem retratado na tela pintada pelo italiano.

 

Quarta Feira 8 de agosto de 2007

 

Aproxima-se o momento de permutarmos nossa condição de hospitaleiros pela de peregrinos. Uma mudança radical de planos nos coloca diante de um grande desafio. A Malú e sua ousadia nos colocaram diante de um Caminho de Santiago diferente. Aceitei pelo radical e pelo novo. Vamos partir dia quinze de agosto rumo a Pamplona, pedalando nossas bicicletas por quatrocentos quilometros no sentido inverso do Caminho Francês. De Pamplona teremos mais noventa quilometros até Irun e os oitocentos quilometros do Caminho da Costa até Santiago. Até o fim do mundo Finisterre, mais sessenta. Que Santiago nos proteja e ilumine o caminho agora tão longo e desafiador. Já estou modificando nossa planilhas. No caminho de Pamplona pretendemos parar mais um dia junto a nossos amigos Acácio da Paz e Orietta em seu albergue de Villoria de Rioja. Antes, se Deus permitir e Santiago nos apoiar, pretendemos percorrer de bicicleta os duros quarenta e cinco quilometros daqui até a Cruz de Ferro e Manjarim, onde vive o Tomás, esse ponto de referência para nós brasileiros e seu albergue em meio às ruínas do pueblo abandonado.

 

 

Quinta feira 9 de agosto de 2007.

 

Um dia de turistas para dois hospitaleiros já um tanto cansados da rotina. Tomamos um ônibus cedo para visitar a bela Leon. A Malú foi às compras e depois um passeio por esse cidade monumental. Lindos palácios, a catedral considerada uma das mais belas de toda a Europa e um centro histórico movimentado por centenas de turistas animaram nossa manhã.

Um saboroso almoço na companhia de Pedro e sua família completaram a manha. Uma visita ao Museu de Arte contemporânea nos levou em uma viagem virtual para novos mundos. Lugar de uma beleza sem par esse edifício moderníssimo junto á costruções centenárias.

Retornando ao Albergue encontramos um ciclista que já é emblemático no caminho. José ou “El Gallego” como é conhecido por todos já está em sua décima primeira peregrinaçao à Santiago. Sua história emociona. Atacado por um câncer, prometeu a Santiago que enquanto estivesse vivo faria uma peregrinaçao por ano em um dos caminhos que levam a Santiago de Compostela. Já está no décimo primeiro ano. Vivas ao Apóstolo Peregrino que lhe dá tanta força.

 

Sexta feira 10 de agosto de 2007.

 

Quando parece que vimos tudo eis que surgem novidades no Caminho. Uma peregrina alemã, com roupas medievais e muitos instrumentos musicais chegou e se hospedou no albergue. Muito animada nos mostrou suas roupas, tocou músicas que nos alegraram muito e encantou com sua presença essa sexta feira de invariável sol.

O Verão é o tempo dos casamentos aqui na Espanha. Nesta sexta, mais um veio por ares de festa na rua em que estamos. O albergue fica ao lado da igreja e somos espectadores privilegiados. Como no Brasil, todos se vestem com suas melhores roupas e o desfile fica muito colorido. Na saída da igreja muito arroz sobre os noivos e fogos para comemorar.

Nas conversas com os peregrinos colhemos interessantes impressões sobre aspectos da vida do país. Chamou nossa atençao as reclamaçoes da classe média daqui sobre a açao dos bancos sobre suas vidas. Para se comprar algo de valor como uma casa., que aqui custa os olhos da cara e mais um pouco, tem que se recorrer aos bancos. As hipotecas com prazos de trinta anos, segundo os comentários, torna o povo escravo do banco. As taxas são variáveis conforme o mercado e eles nunca sabem como vai ser no futuro.

Em compensaçao, o sistema de saúde pública garante aos idosos a partir dos setenta anos, assistência médica domiciliar de boa qualidade. Aqui funciona.

 

Sábado 11 de agosto de 2007.

 

Aproxima-se o dia de partirmos rumo a jornada de peregrinos no Caminho de Santiago. Na próxima segunda feira chega a nova hospitaleira, uma jovem de Barcelona que vai nos substituir. O dia de sábado na cidade é movimentado. Todos vão às compras para preparar o almoço de domingo. Aqui ainda existe o hábito das famílias se reunirem nos domingos para lamoçarem juntas. O Pedro, nosso amigo do albergue invariavelmente almoça com sua família na casa de sua mãe.

Mais uma brasileira está conosco. Vivem em Bostom, nos Estados Unidos e aproveita suas férias de Verão para “descansar” no Caminho de Santiago. Uma coincidência, a irmã da peregrina brasileira mora em Camboriu. Mundo pequeno esse em que vivemos.

 

Domingo 12 de agosto de 2007.

 

A tranquilidade da madrugada foi quebrada por trovoes e o forte ruído de granizo no telhado. Em poucos minutos tudo ficou coberto por uma grossa camada de gelo. Tivemos que saltar da cama para ver se tudo estava bem e para nossa surpresa nos deparamos com o piso inferior coberto de granizo. Uma falha na drenagem, que ficou obstruída pelo gelo fez transbordar um rio de gelo para nossa sala. Apenas o susto. Pela manha estava tudo bem.

Nossos amigos Pedro e esposa nos levaram para uma festa típica em sua cidade natal, próxima daqui. Um alegorizando lindo, enfeitado para festa e repleto de pessoas alegres como naquelas antigas festas de interior do nosso Brasil. Muito artesanato, bordados em ponto cruz que fizeram Malú ficar emocionada pela qualidade, instrumentos medievais ainda fabricados pelos antigos moradores, tudo fez do lugar um recanto mágico que não vamos esquecer.

 

Aos amigos do Brasil que nos acompanharam nesses dias de Hospitaleiros Voluntários no Caminho de Santiago de Compostela fica o nosso abraço fraterno. A experiência que vivemos nesses dias será novamente um divisor de águas em nossas vidas. Nossos valores sofreram um reordenamento dentro dessa fantástica aventura que é a passagem dos seres humanos pelo Caminho da Vida. O convívio com tantos peregrinos, suas histórias e experiências é uma coisa que pode ser descrita mas só será plenamente entendida se vivida. Como sabiamente escreveu em seu blog nosso amigo brasileiro Ronnie “eles vão ganhar algo que nunca poderá sem comprado, vendido ou doado”. Realmente uma experiência  como essa tem seu valor acima dos bens materiais. Transcende a tudo que possa ser comprado, é algo a ser conquistado.

À minha parceira inseparável a Malú, fica o profundo agradecimento por estar comigo nessa jornada. Incansável, acordou todos os dias na madrugada para cuidar que os peregrinos fossem bem alimentados antes de partir. Seu sorriso foi combustível para mais um dia duro no Caminho dos peregrinos.

A minha mãe que segura suas saudades no Brasil um abraço apertado. Espere um pouco mais e, depois de visitarmos Santiago e orarmos por todos na sepultura do apóstolo, retornaremos com muitas histórias.

No próximo dia quinze estaremos iniciando uma jornada pouco convencional de peregrinos. Partimos pedalando no sentido inverso rumo a Pamplona e depois até Irum onde inicia o Caminho do Norte ou Caminho da Costa. Uma nova e desafiadora aventura nos espera. Que Santiago nos proteja.

 


Estaremos atualizando com menor frequência o blog pois os dias serão duros nas jornadas de pedal. Estaremos registrando as imagens e anotando o diário e dentro do possível colocaremos na Internet.

Um grande abraço a todos.


Carlos e Malú

 


3 Comments
varda wrote on Aug 13, '07
Pedalar de volta até Pamplona é mais de meio caminho de Santiago[Caminho real francês.] // vide link http://www.caminhodesantiago.com/mapas/mapa_1.htm // vc´s estão dizendo que vão agora percorrer o Caminho do Norte, este não começa em Bayonne ? [na França.]. Bela aventura !! Desejo ainda mais sucesso pra vocês !!
kbeppler wrote on Aug 13, '07
O Marcelo.

Como tudo aqui na Espanha só temos boas referencias dos trechos espanhóis. Irun fica na fronteira com a França. Do outro lado é Hendaya.
Quanto a pedalar 400 Km de volta é um desafio que já pensávamos desde 2005.

Ultréia.
jotaba wrote on Aug 17, '07
Queridos amigos, que Deus proteja a nova jornada de bicilcleta. Que nada de mal lhes aconteça, e que grandes alegrias e imenso sucesso seja o apanágio da nova empreitada. Um abraço fraterno do Jobél.
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